Prólogo e Capítulo 1

Seguem abaixo o prólogo e o 1º capítulo de Lâminas do Inverno. É uma pequena prévia do livro.

Boa leitura!

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Era um pesadelo. Só podia ser afinal porque a escuridão? As noites não eram tão escuras assim, não para a menina. Ela conhecera uma vida até que um tanto requintada, iluminada apesar de tudo. Não estava acostumada à escuridão. Não àquela escuridão. Esticou as mãos para frente na esperança de tatear algo sólido, mas sem resultado. Decidira então caminhar lenta e cuidadosamente. Podia ser que encontrasse a luz mais a frente, na melhor das hipóteses.

Caminhou durante mais um tempo, sem resultado. Agora a menina começava a demonstrar-se impaciente e desesperada. Nem mesmo o maior salão de sua morada se comparava com aquela frustrante distância percorrida. Finalmente ela começou a correr aos prantos gritando pelo nome de seus pais.

Correu até cansar-se. Por um momento fugaz pensou estar morta. Podia ser que estivesse. Até que então ela se lembrou das palavras do padre sobre a vida e morte, e o Além. Não, não estava morta e isso já era um alívio, apesar dos pesares. Mas tinha que sair daquele sufoco. Lembrou-se então da última coisa que poderia ser. Magia. Sim, certamente era magia; o que mais poderia ser? Para eliminar as trevas, bastava um pouco de luz.

A esperança renascera na criança. Por sorte, ou destino, ela havia aprendido um pouco das artes arcanas e, por mais sorte ainda, ela sabia criar a luz. Bastava fazer como havia aprendido. Era simples, apenas alguns gestos e a pronúncia correta das palavras de poder e a escuridão se esvairia.  Por este parágrafo, pode-se ver que certamente ela não era uma menina comum. Afinal, para dominar a magia são necessários anos e mais anos de estudo, além de uma dedicação sem par. Poucos são os com privilégios de poder ingressar em alguma ordem arcana. E ela o tivera. Não apenas pelo seu nascimento fortuito, mas também pela sua inclinação pela Arte.

Preparou-se então para poder evocar a luz. Seus delicados braços abriram-se em um semicírculo, formando um arco pleno na horizontal. Então ela os esticou em frente com os dedos das mãos fechados, exceto pelo indicador apontando para cima e os polegares se encontrando. A estes gestos, somaram-se o som de sua suave voz de menina jovem:

-An anwëyar as gaien – Tah el an zir!

Nem um efeito. Ela sentira a energia canalizada através de seus dedos, mas nada acontecera. Agora sim havia motivo para perder as esperanças e cair em desespero. Sentindo-se sem mais forças, tombou em joelhos, amargurada. Eis que então, ao se ajoelhar, ela toca em algo sólido que não o piso. Tateando, a menina segurou o objeto. Pela forma, parecia uma espada curta, ou algo do tipo, até que em seu exame, ela deixou escapar um pequeno gemido de dor: a lâmina lhe fizera um pequeno corte na mão.

De súbito, o som pareceu esvair-se em um mutismo absoluto e as luzes se acenderam. Em um borrão de imagens, ela perdera a noção do tempo e espaço. Algo muito vermelho à frente, cores doiradas, um quadro, uma cama, gritos desesperados, gritos de dor, gritos de agonia, gritos dela. As imagens deram lugar a uma cena mais visível, como no despertar de um sonho. Aos poucos ela ia se acostumando à claridade aparentemente normal, quando o que ela viu por frações de segundo, a deixou completamente aturdida e sem reação.

Estendidos em uma cama de ricos detalhes, estavam dois corpos. Um homem e uma mulher, os olhos revirados nas órbitas. Estavam mortos.

Ela não podia acreditar na cena que via. Por breves instantes ela ficou estática, para então seus olhos umedecerem de lágrimas transbordantes. Aquilo era mentira. Era mentira! – uma voz ecoou em sua mente. A menina então percebeu que quem estava gritando essa frase era ela mesma.

Eis que então os olhares convergiram a ela, o que a deixou em uma posição defensiva. Recuou um passo, dois, três… até notar o que realmente as pessoas estavam olhando. Em sua mão estava a espada curta embebida de sangue até o cabo. Arregalou os olhos para o objeto e depois fitou as pessoas à frente. Apenas uma palavra formou-se em seus lábios: – Por quê?

Ela estava tonta. Ainda estava em transição dentre as imagens borradas e o real a sua frente. As vozes a confundiam, a visão dos corpos a deixava sem ação. O que afinal estava havendo? Sentiu então um par de mãos leves a tocarem de leve em seus ombros para então puxá-la leve e delicadamente para si, ocultando a sua visão. A pessoa que a apertava contra si era uma das criadas do palácio. Mais precisamente sua melhor amiga e aquela que foi sua ama-de-leite. Era uma mulher madura, de longos e belos cabelos negros, de tez rósea. Seu rosto era o de uma pessoa serena, mas agora mostrava-se com uma face preocupada.

A menina virou-se reconhecendo a criada. Seus olhos imediatamente umedeceram de lágrimas. Com a voz embargada ela repetiu a pergunta:

– Layfha… por quê?

Os corpos estendidos na cama eram o do rei e rainha de Lehainas. Seus pais.

Capitulo I – Ataque na Vila

Forwën acordou com um susto. O coração batia apressado e suas mãos tremiam. Ela estava a suar frio.

Passado um tempo, conseguiu se acalmar: – Um pesadelo! – Foi o que falou, soltando um suspiro conformado. Ela olhou para o lado, para a janela fechada e viu que o sol já se levantara por causa dos raios que ultrapassavam as frestas de madeira. Porém, permaneceu ainda deitada, confusa, voltando à realidade aos poucos. Por fim levantou-se cambaleante da noite mal dormida e caminhou até a janela de madeira tosca.

Parada ela permaneceu, deixando o Sol esquentar seu belo corpo. A sensação do frescor do amanhecer era maravilhosa. Com isso, Forwën finalmente se sentiu desperta, apesar que a imagem do sonho ainda estava em sua mente.

– Não é hora de pensar nisso – falou para sim mesma, pensativa.

Em seguida ela caminhou para um pequeno espelho rústico que se situava em um dos cantos do modesto quarto. O ambiente apesar de simples, não era de todo desconfortável. Pelo contrário, oferecia até um certo conforto até para os viajantes mais exigentes, exceto é claro, àqueles acostumados ao luxo. Compunha o todo, de uma cama baixa, dois baús, uma escrivaninha de madeira já carcomida de cupins, o espelho (que por sinal estava um pouco rachado em sua parte superior) e um cabide tanto para roupas, quando para armaduras. A de Forwën estava lá, pendurada. Pendia encostada na parede sua espada e provavelmente nos baús se encontrava o resto de seu equipamento de viagem.

Isso porque aquele quarto pertencia a uma taverna que oferecia dentre vários serviços, o pernoite para viajantes, como Forwën.

Ao mirar-se no espelho, ela viu uma moça de média estatura, cuja idade era difícil de atinar. Um observador cuidadoso notaria alguns traços de menina que acaba de deixar a adolescência, mas mantém ainda algumas características infantis. Porém, em seus modos, em seu jeito, poder-se-ia encontrar já uma mulher, esbelta, quando muito, com dezenove anos. Sua pele era de um alvo delicado, seus pequenos lábios eram bem delineados, de um róseo vivo, o nariz fechava o conjunto facial, vindo a combinar perfeitamente com o seu rosto. O que mais chamava a atenção nela, entretanto, eram seus olhos e seus cabelos. Os olhos eram de um verde esmeralda, vivos, como se uma chama verde estivesse a dardejar luz própria dos mesmos, enquanto que seus longos cabelos eram de um branco como a neve.

Pode ser meio difícil compreender como uma pessoa tão delicada poderia usar uma armadura e uma espada. Nem mesmo Forwën compreendia. O fato é que a arma servia apenas para sua proteção, ou em algum caso mais desesperado, para arranjar algum dinheiro caso precisasse fazer algum serviço como mercenária.

Acontece que Forwën não estava em busca de riqueza, ou mesmo de trabalhar como mercenária. Não. Sua meta era algo bem maior.

E era nisso que ela pensava enquanto vestia lentamente a sua armadura.

Novamente ela caminhou para a janela, sentindo agora a brisa dos ventos do inverno que estava próximo. Ela apertou-se contra si em sua capa. Mesmo acostumada ao frio como ela era, aquele vento a fez ter um estremecimento. Sua respiração provocava um vapor cristalino devido ao frio.

Pensando em seu propósito, ela contemplou a bela vila situada em meio ao vale Torn na orla da floresta de Brantorn.

Apenas uma palavra formou-se em seus lábios:

– Alfheim…

Realmente aquele seria um dia agradável afinal, pensou ela.

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Eram aproximadamente vinte cavaleiros, o que consistia uma pequena tropa. Cavalgavam em trote lento, seguindo uma fila indiana. Pelo aspecto deles, qualquer viajante que os avistasse, procuraria fugir o quanto antes para evitar encrencas. Não que eles parecessem tão maltrapilhos assim, mas afinal, à primeira vista podia-se ver que se tratavam de bandoleiros.

Seu líder entretanto, em nada se parecia com os seus companheiros. Seguindo à frente, ele pensava no que iriam fazer dali em pouco tempo. Sombrio, parecia até que ele estava pesando as ações que se seguiriam. Tratava-se de um meio-elfi, de tez um pouco morena devido à exposição ao Sol. Era alto, forte, com longos cabelos castanhos escuro a cair sobre os ombros. Em sua face, uma expressão fria e severa. Ele vestia uma armadura de um couro muito bem trabalhado. Em seus quadris pendia uma cimitarra de cada lado.

Imerso em seus pensamentos ele não percebeu quando o segundo líder do bando aproximou rapidamente em seu cavalo. Seu jeito de conduzir o animal era um pouco descuidado, como se estivesse avaliando sua capacidade de cavalgar, mantendo-se seguro na sela.

– Finalmente você decidiu atacar. Eu te falei que precisaríamos disso cedo ou tarde.

O meio-elfi, a quem era dirigidas essas palavras, ignorou por um breve instante seu interlocutor. Com um suspiro, deixou os seus pensamentos e encarou o subordinado.

– Sei o que você está pensando – respondeu.

– Então – tornou o outro – dê-me permissão para comandar os homens e…

– Não. – interrompeu o meio-elfi – Minhas ordens são claras: apenas os víveres necessários ao acampamento. Nada mais que isso.

– Mesmo assim precisaremos de mulheres.

O meio-elfi estreitou o olhar:

– Apenas uma – disse com ênfase na última palavra – não mais que isso.

– Ora Nynther! O que diabos faremos apenas com uma? Já disse que essa sua moleza ainda será prejudicial a nós. Os homens também têm o direito de divertir-se!

Nynther endureceu ainda mais o olhar.

– Eu já disse e não repetirei mais, Laighas – respondeu friamente – nós não estamos indo nos divertir, mas sim adquirir os víveres necessários se for me desobedecer, diga de uma só vez!

Laighas imediatamente ia responder algo, mas pensou melhor e disse apenas:

– Sim, como desejar, senhor comandante.

Nynther observou Laighas se afastar. Sabia que o subcomandante estava furioso, mas na verdade ele não se importava o mínimo com isso. Voltou a seus pensamentos.

– Brantorm – murmurou em voz baixa.

Olhando o vale abaixo, erguia-se a pequena vila, rodeada de árvores em meio a um relevo acidentado.

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A pequena vila de Brantorm, situada no vale Torm é uma agradável cidadezinha montanhosa. Com seus pouco mais de duzentos e cinqüenta habitantes, era freqüentemente procurada por viajantes, tanto para descanso quanto como intercessão para prosseguir viagem além de Lehainas. Isso porque a vila localiza-se quase na fronteira norte do reino, sendo até que um pouco independente, com um governo comunitário elegido entre os comerciantes apenas para representação a estrangeiros e questões locais.

Sua arquitetura possui traços comuns, casas baixas, com exceção das tavernas, predominantemente em madeira. As vias são de terra batida, pelo passo cadenciado dos animais e do movimento diário de seus habitantes. A maior construção talvez seja a Grande Casa, como era chamada pelos tornianos. Trata-se de um espaço com amplos vãos destinado à reunião de mercadores e seus afazeres. Era considerado o ponto central e marco da vila, onde em frente situa-se uma pequena praça. O segundo ponto mais importante do local é a pequena capela destinada a todos os deuses. Pela falta de sacerdotes, o governo local erigiu um santuário para adoração a qualquer deus. Ficava logo na única entrada da cidade para que qualquer um pudesse adorar ou simplesmente pedir proteção a seu deus.

Protegendo a vila, apenas uma muralha de paliçadas de madeira. Havia também a milícia local, se é que se pode ser chamada de milícia realmente. Eram apenas uns oito homens que possuíam o cargo apenas por simbolismo, pois que eles eram mais habilidosos na enxada do que na espada.

E mais que isso, o terreno irregular do vale reforça a proteção do lugar. A região ao todo é circundada por formações rochosas de médio porte, dando a impressão de um pequeno exército espalhado em meio ao campo. Ao norte e ao leste, situa-se a pequena floresta de mesmo nome da vila, com seus carvalhos e pinheiros. Alguns ainda com folhas ocre amareladas, outros já com os galhos nus, o que indicava a proximidade do inverno. A oeste está uma modesta coluna de pedras e colinas onde nasce o caudaloso ribeirinho de Syr, o que provém a vila com a água, tão preciosa. Finalmente ao Sul, fica a entrada do pequeno vale, com uma campina rala e ainda assim verdejante.

Em suma, Brantorm é uma vila simplória e aconchegante para certos padrões. Com uma comunidade unida e trabalhadora. Uma vila como qualquer outra, com o monótono som das marteladas do ferreiro, se confundindo com os cascos dos cavalos e burros de carga. Com o alto burburinho das ofertas dos mercadores a viajantes passageiros, contrastando com o volume do tear das mulheres. Com sua população em sua maioria analfabeta, mas de certa forma, feliz, mesmo que ainda vivendo em condições um tanto precárias.

A verdade é que, eles eram livres e compreendiam muito bem o significado desta palavra.

Por fim, o local de onde vinham os maiores sons era na Taverna do Javali Perdido, onde recentemente se instalara uma viajante mais estranha do que todos os outros que já lá pisaram. Isso porque tratava-se de uma jovem e linda moça, de olhos verdes cristalinos e um longo cabelo branco.

De fato, a presença de Forwën marcou um desses raros acontecimentos que mexem com toda uma vila. E apesar dos pesares, todos ficaram encantados com a moça que mesmo trajando uma armadura e portando uma espada, parecia ser mais ameaçadora que os homens da cidade. Encantaram-se pela sua gentileza e sorriso que ela tratava a todos. E, sobretudo pela pena que sentiam dela, pois que ela ainda assim trazia consigo uma certa aura de tristeza e melancolia, ressaltada pelo brilho de seu longínquo olhar a espreitar o horizonte sem fim, como que em busca de algo ainda intangível.

– Alfheim – ela falou baixinho mais uma vez.

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Nynther contemplava a região uma vez mais. Como era bela!

É verdade que o local onde ele e seus comandados se instalavam não era um lugar nada mal também, mas o meio-elfi tinha a civilidade e percepção necessárias para saber reconhecer algo belo. Principalmente na natureza, estava no seu sangue afinal. Aliás, sobretudo na natureza! Ele tinha consciência do valor de cada pedaço selvagem da região. E as respeitava. Isso porque ele também sabia se comunicar com o selvagem. Afinal, ele também era parte disso assim como todos os seres.

O remorso apertava-lhe cada vez mais. Dali a pouco ele teria perdido a vontade de dar a ordem que sabia que teria que dar.

Seu cavalo relinchou baixo, bufando logo em seguida, talvez como reclamação pelo frio. Nynther segurou firme as rédeas com os dedos um pouco entorpecidos. Outro pensamento lhe veio a mente: A de sua terra natal. Aquela terra era bela sim, mas em nada se comparava à sua terra que ele fora obrigado a deixar. Era até engraçado como os dois vales eram até parecidos, mas em sua terra havia um cintilante lago prateado e as árvores eram mais robustas.

Novo relinchar do cavalo. Desta vez era Laighas se aproximando de novo.

– Nynther! Os homens já estão posicionados e impacientes. Os cavalos estão com frio. O quanto antes atacarmos, melhor! – falou.

Nynther nada disse, apenas esporeou o cavalo para perto dos outros homens. A simples presença dele inspirava um respeito medroso nos comandados. Nenhum deles ousou falar. Nynther olhou nos olhos de cada um e viu o motivo de estarem ali. Chamou-lhe a atenção um jovem do bando. Seu nome era Chander. Talvez fosse o que tivesse os olhos mais vivos dali.

– Muito bem rapazes, estamos aqui e vamos fazer o que deve ser feito. Vocês sabem muito bem as ordens que lhes foram dadas. Evitem também movimentos desnecessários. A vida de vocês é preciosa para mim. E nada de eliminar vidas inocentes entendido? – falou em voz alta Nynther.

– Sim chefe! – responderam os cavaleiros.

Nynther virou-se para o garoto: – Você, Chander! Venha comigo!

– Como quiser, senhor – respondeu o interpelado movendo o cavalo para perto de Nynther.

– Não sou senhor de ninguém e você sabe muito bem disso. Quero que você me acompanhe no ataque.

– Como quiser, meu senhor – retrucou o rapaz.

Nynther já havia se virado quando parou ante àquela resposta insolente. Se virou novamente para fitar o jovem e aparentemente orgulhoso garoto.

– Quantos anos você tem? – perguntou.

– Quinze, senhor.

O meio-elfi voltou-se uma vez mais para o vale e avistou a vila. Quinze anos! – ele pensou amargurado. Moleques que mal haviam entrado na adolescência e já portanto uma espada, em batalhas de vida ou morte, convivendo com o gosto e cheiro de sangue.

Pensou no jovem. Era realmente bem jovem, mesmo para padrões humanos. Possuía cabelos curtos, ondulados de tez negra, sendo seus olhos da mesma cor. Sua pele era de um moreno leve, queimado pelo sol, assim como os homens do bando. Estava trajando uma armadura um pouco velha de couro, com botas de montar, também de couro.

Era por causa de jovens como Chander, ou homens como os guerreiros de seu bando que Nynther tinha porque tinha que fazer o que iria fazer, porém seus comandados ainda não o sabiam.

– Atacar! – ordenou laconicamente.

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Forwën inspirou fundo novamente o ar da manhã. Em seguida ela olhou para baixo. Gostava de ver a cidade nascendo, as pessoas circulando nas estreitas ruelas, apregoando suas mercadorias e serviços.

Algumas pessoas a viram na pequena janela da taverna, no segundo andar, e acenaram para aquela forasteira estranha, mas gentil.

Divertida, a moça acenou a todos e depois se virou para o interior de seu quarto, decidida a prosseguir viagem para o extremo norte. Para isso ainda tinha que arrumar suas coisas.

Estava nesses afazeres quando o fecho da bainha de sua espada soltou-se, caindo no chão de madeira provocando baque metálico, o que fez Forwën estremecer, enquanto o fino som ia se perdendo no ar. Em seguida ela tomou a bainha em mãos delicadamente. Saco então a espada e pôs-se a fitá-la. Era uma boa peça, nada de excepcional, exceto o excelente acabamento em aço na empunhadura. Não havia nenhum desenho ou escritura em especial, mas a espada esteve com Forwën havia um bom tempo. Quantas vezes já a utilizara? Quando foi a primeira vez que matara alguém? Um bom tempo ela permaneceu nestas reflexões enquanto segurava a espada. Enfim, guardou-a na bainha.

Agora ela examinava com cuidado sua bainha. Assim com a espada, possuía um acabamento muito bom. O que mais chamava a atenção era a imagem de um dragão cuspindo chamas e uma imagem do Amanhecer, um dos símbolos da deusa Dhaneria. A bainha em si era de madeira, o dragão e o sol em ouro. Por causa disso devia valer algumas moedas a mais. Porém, o que lhe dava mais valor, era o fato de ter sido um presente de sua mestra.

Novo estremecimento. E não era de frio. Pensou então nos anos passados, quando estivera com seu mentor. Mais que isso, foi como uma mãe para Forwën. Seu nome era Erlenas. Obviamente dedutível pelo nome que se tratava de uma elfa, ou seja, pertencia à raça do Povo da Música, como eram conhecidos em algumas terras de Dhaneria.

Apesar de não ser tão velha pelos padrões de sua raça, Erlenas já tinha alguns anos de vida bem vividos. Forwën se lembrava que quando ainda menina, abandonada, com as vestes em estado deplorável, faminta, estivera prestes a encontrar a morte, quando fora encontrada e acolhida pela elfa. Lembrava-se muito bem de como ela era. Linda como quase toda integrante do Belo Povo, Erlenas possuía um volumoso cabelo castanho, cacheado e olhos cor de mel.

Sua sobrevivência e auto-suficiência Forwën deve a ela. Tudo que a garota sabe, desde a sua fluência no élfico, até no manejo da espada, deve a Erlenas. E por isso Forwën lhe sempre será grata.

Apesar de tudo, Erlenas desapareceu. Simplesmente ela acordou e a elfa havia sumido. Procurou nas redondezas e nada. Nenhum sinal. A bem da verdade, Forwën desconfiava de um lugar: Alfheim. Isso porque a elfa viera de lá. Na noite anterior do sumiço, Forwën lhe contou o que se lembrava de sua história e relatou o desejo implantado em seu coração de ir para a Cidade Oculta, como era conhecida. Erlenas ouviu em silêncio e se opôs. Forwën não devia ir para lá. Não agora. E então a elfa teve uma visão. Pelo menos parecia ter entrado em transe. O que ela viu, não relatou a Forwën, mas após esta cena ela havia mudado e ficado mais calada.

E assim permaneceu por toda a noite. E quando Forwën despertou, ela já não mais lá estava.

Forwën suspirou e ajeitou o fecho da bainha de forma correta. Mas aquele não era o principal motivo de ir para Alfheim. Enquanto arrumava suas coisas ela tocou um objeto, frio e delicado ao primeiro toque, com uma textura lisa. Era uma pequena esmeralda oval, de um belo verde e uma fina camada luminosa, refletida aos raios solares que se derramavam pelo quarto. Estava presa a um cordão. Até mesmo a mais leiga das pessoas poderia deduzir que aquela pedra não era como as outras e que deveria valer uma pequena fortuna.

Tomou a pedra em mãos e pensou nas palavras que ecoavam em sua mente:

“- Forwën, vá para Alfheim! Lá você encontrará a verdade. Essa pedra é sua entrada para lá!”.

Erlenas conhecia a pedra. De fato era uma obra de ourivesaria advinda de Alfheim. A esmeralda era uma pedra de alto valor mesmo entre os elfos e somente aqueles dignos poderiam possuí-la. Forwën se lembrava muito bem dessa conversa, afinal fora no mesmo dia em que ela expressara desejo de ir para a Cidade Oculta.

Novas palavras ecoaram em sua mente:

“- Guarde bem essa pedra, pois ela é bastante valiosa. Mais que isso, se um dia você pretende ir para lá, essa pedra será a sua entrada.

Forwën suspirou novamente. Não adiantava ficar pensando no passado. Passado que não voltava e nunca iria voltar. Forwën guardou a pedra. Tinha que alcançar Alfheim. Muitas respostas certamente seriam encontradas lá. Resoluta, ela amarrou o cordão em seu pescoço, escondendo por baixo da túnica sob a armadura, arrumou suas coisas, amarrando-as, depois cingiu a espada e se ergueu para sair.

Estava com a mão quase encostando à maçaneta da porta, quando esta se abriu com um estrépito provocando um forte estrondo ao encostar-se na parede. Em seguida uma mulher com ares de desespero adentrou no recinto. Forwën reconheceu como uma das filhas do taberneiro.

– Ah! Senhora Forwën, finalmente a encontrei! Por favor, nos ajude! – a moça suplicou com voz entrecortada.

– Calma, acalme-se! O que aconteceu?

Ela respondeu ainda ofegante:

– Eles vieram senhora. Estão atacando aqui também! Bem que os rumores eram verdadeiros! A senhora tem uma espada, por favor, use-a contra eles!

Forwën estava perplexa

– Eles quem? Quem são eles?

– As pessoas os chamam de Bando das Duas Espadas. Eles de tempos em tempos invadem e saqueiam as vilas agora e agora estão aqui! Ouça, ouça os gritos!

Forwën apurou o ouvido. De fato, ao longe vinham gritos. Gritos de socorro. Talvez ela pudesse tê-los ouvido antes, mas perdida em seus pensamentos, ficara distraída. Ela correu de volta a janela do seu quarto para observar melhor. O que Forwën viu, foi o suficiente para tomar uma resolução. Na estreita via, três cavaleiros se aproximavam arrancando à força em seu percurso, um saco cheio de frutas das mãos de uma mulher que fugia aterrorizada. No processo, a mulher foi ao chão. Nos rostos dos cavaleiros havia um quê de crueldade em seus risos ao realizar tal ato vil. Forwën, ante a essa visão apenas murmurou: – Pela glória de Amanna!

Sacou de sua espada com força, fazendo a lamina uivar um som agudo e alto, correndo em seguida para as escadarias abaixo dizendo para a filha do taberneiro:

– Já é motivo mais do que suficiente!

Ela mal chegara no andar de baixo, quando dois homens, por sinal, dois dos três cavaleiros que ela vira da janela, adentraram na taverna com as espadas desembainhadas. Forwën observou melhor quem eram os inimigos.

Com um aspecto terrível e sujo, os homens trajavam vestes de um couro vagabundo e botas de montar. Um dos homens tinha uma capa puída, enquanto que o outro não possuía capa alguma. Ambos tinham cabelos negros e a pela amorenada, cheia de cicatrizes de batalhas. Suas espadas estavam em um estado razoável. Qualquer um poderia notar que se tratava de bandoleiros.

– Taverneiro! Queremos vinho e queijo! – ordenou arrogantemente um deles.

– E traga o vinho da melhor qualidade! – acrescentou presunçosamente o outro.

O pobre taverneiro, um homem gordo e baixo, estava em seu balcão de madeira, tremendo da cabeça aos pés, com medo, impossibilitado de falar ou protestar qualquer coisa. Paralisado, estava impossível de exercer a ação que tinha sido incumbido.

O segundo homem gargalhou falando alguma coisa e se aproximou ameaçadoramente do taverneiro, fitando seu rosto bem defronte ao dele.

– Qual diabos foi a parte que você não entendeu? Vinho ou Queijo? – exasperou-se o bandoleiro – Que raios de taverna é esta em que os clientes não são atendidos? A gente fez um pedido! Agora é uma ordem! Faça! – e seus gestos eram ainda mais ameaçadores.

Dito isto, o bandoleiro puxou fortemente o taverneiro pelo colarinho para obrigá-lo a se mexer.

A um canto, a mulher do taverneiro chorava e pedia para deixarem seu marido em paz. O filho do taverneiro, um moleque dos seus doze anos, também amedrontado, venceu o medo e, empunhando uma faca que estava sobrando em uma das mesas, tentou atacar o bandido. Porém este o viu e apenas o empurrou para longe fazendo-o ir de encontro as mesas.

– Aron! – gritaram a mãe e o pai ao mesmo tempo.

O garoto batera com a cabeça na quina de uma das mesas, largando a faca que deslizou para longe. Tonto ele conseguiu manter o olhar para o homem que ameaçava seu pai. Um filete de sangue escorria em sua testa.

O segundo bandoleiro, que estivera a divertir-se muito com tudo aquilo, riu bem alto e se aproximou de Aron dizendo:

– Aqui temos um moleque bem valente, não? A quem puxou garoto? Ao pai que não foi. – Nova gargalhada de ambos.

Então o homem estendeu sua espada, ameaçando Aron, que agora estava com o corpo tenso, visivelmente apavorado e frustrado pela humilhação que acabara de receber.

O homem que segurava o taverneiro fechou a cara e disse:

– Já chega de brincar, o chefe exigiu um serviço rápido e é o que vamos fazer – ele se virou para o taverneiro – Vamos logo com isso, onde fica a maldita despensa? Fala se não a gente mata o pirralho!

– Vocês não vão matar ninguém enquanto eu estiver presente seus vira-latas imundos! – Forwën desceu o último lance da escada e manteve-se entre os dois bandoleiros a mais ou menos vinte passos – E você – ela disse se dirigindo ao primeiro homem – acho melhor largar o taverneiro o quanto antes.

Ela proferiu essas palavras com a espada estendida, apontando para aquele que ameaçava o garoto.

Os dois homens se entreolharam por um segundo e depois desataram em uma outra gargalhada, ainda mais estrondosa que a anterior. O primeiro deles falou:

– Quem você pensa que é sua franguinha, para ameaçar homens como nós? Quer dar uma de herói é?

– Ora, ora, uma mulher que não é destas paragens com certeza. Diga-me mocinha aventureira o que fazes aqui? E que raios de cabelos brancos são esses? – perguntou o outro.

Ao que Forwën respondeu:

– Os meus desígnios são meus e pertencem apenas a mim. Não é assunto que interesse a vocês maltrapilhos inúteis. Quanto aos meus cabelos brancos, é outro assunto que não interessa. O que importa aqui e agora no momento é que vocês deixem essa família em paz e se retirem!

Os homens franziram o cenho. Aquilo já estava por irritá-los.

– E ainda pelo modo de falar me parece uma destas aristocratazinhas vagabundas. Escute aqui ó garota valente. Cansei das suas respostas. Quis ser gentil, mas estou vendo que é impossível. Vou lhe ensinar uma lição agora mesmo! – Exclamou atropelando as palavras aquele que ainda estava segurando o taverneiro, empurrando-o com força no momento em que falava.

O taverneiro foi ao encontrou de uma prateleira de madeira, derrubando alguns utensílios.

– Ela até que não é nada mal, não é? – falou o outro – podemos nos divertir com ela!

– Ah, com certeza vamos nos divertir. Estou louco para provar dessa linda carne branca.

– Tente se quiser – respondeu Forwën com asco daqueles homens.

Ela posicionou-se em guarda enquanto os dois homens também se posicionavam cercando-a. O garoto Aron, aproveitou que o homem lhe dera as costas, para se arrastar de volta á sua mãe.

Forwën sabia que eles atacariam ao mesmo tempo. Cabia a ela então tomar a iniciativa primeiro, de forma a evitar que um dos homens a flanqueasse. Seu ataque deveria ser certeiro e rápido. Sem dizer uma palavra, ela avançou para o segundo bandoleiro em um movimento veloz e esguio, como um bote de uma serpente, do jeito que aprendera com Erlenas.

O movimento dera certo. Ao avançar, Forwën desviou graciosamente, mesmo para um humano trajando uma armadura, do ataque do homem, encontrando nesse ponto, uma brecha em seu flanco direito. Ela prontamente aproveitou essa abertura desferindo ao seu ataque. O golpe fora fatal e o bandido caíra soltando um gemido de dor, encolhendo-se em si mesmo tentando desesperadamente estancar o corte em sua lateral. Na queda, largara sua espada.

Foi apenas o tempo de Forwën se virar e sua arma se encontrara com a do outro bandido que avançara com raiva agora redobrada pelo seu companheiro, provavelmente morto.

– Sua vadia desgraçada! Estava escondendo o jogo? Vou matar você! – ele sibilou.

Ela nada disse. Estava concentrada na luta. Seus penetrantes olhos estavam fixos nos olhos de seu oponente. Forwën então afrouxou a força fazendo o homem se desequilibrar para frente. Dessa forma, ela saiu do espaço de ataque dele para finalmente cravar a espada em suas costas. O homem caiu sem uma palavra.

Forwën ficou a olhar para seus oponentes caídos por um breve instante de tempo, aquele que fora atingido primeiro, desmaiara por causa do sangue que perdera. Em seguida ela voltou-se para a família do taverneiro que se abraçava chorando.

– Vocês estão bem? – perguntou.

– Muito obrigado, muito obrigado minha jovem! – agradeceu o taverneiro – não por você, nem sei o que poderia nos ter acontecido.

– Está tudo bem agora, fiquem aqui e tranquem a porta da taverna, eu vou dar uma olhada lá fora.

O taverneiro assustou-se.

– Não faça isso, eles são muitos! Você não pode com todos eles! E ainda que você os derrotasse, ainda tem aquele demônio loiro e o comandante deles!

Agora foi a vez de Forwën demonstrar alguma reação. Ela se espantou.

– Demônio loiro? Você os conhece?

– Não muito bem. Sei que eles são conhecidos como o Bando das Duas Espadas, isso por causa daquele líder deles, o tal de Nynther. Ele é um meio-elfi e um homem frio de olhos frios. O outro se chama Laighas, creio eu. É um ser cruel pelo que eu ouvi falar. Já me contaram que os homens mais controlados são da tropa de Nynther. Aqueles que são como… esses aqui – o taverneiro neste momento, apontou para os homens caídos no chão – são de Laighas. Ambos são perigosos de qualquer jeito. Vivem de saquear vilas. Faz muito tempo que eles não vêm aqui.

Ele estremecia só de citar esses dois nomes.

Forwën ponderou um pouco e respondeu:

– De qualquer jeito eles virão procurar os companheiros que estão faltando e virão para cá, o que não será bom nem para sua família, nem para a taverna. Uma vez que eu encontre a confusão lá fora, você e sua família estarão a salvo. Pelo menos assim creio eu.

– Isso é verdade, mas… – o taverneiro hesitava ante aquela mulher que se arriscara para salvar sua família e agora praticamente se sacrificaria pela vila.

Forwën, percebendo o porquê da hesitação do homem, procurou tranqüiliza-lo.

– Não se preocupe, vocês me acolheram bem, verei o que posso fazer por esta vila.

– Então… que as bênçãos dos deuses te acompanhem. Muito… obrigado novamente – em seguida ele levou as mãos à cabeça ao mesmo tempo em que observava os homens caídos – Sangue! Eu nunca imaginaria que sangue correria em minha humilde estalagem. Nunca!

Forwën apenas balançou a cabeça e saiu. Fora, havia um clima de bagunça nas vias. As portas estavam fechadas e gritos ecoavam pelas ruas. Olhou para o chão e viu rastros de pegadas de cavalos. De repente, um vento frio soprou, sussurrando em seu ouvido. Ela conhecia muito bem essa sensação. Não era a primeira vez que a sentia e tampouco, ela sabia, seria a última. E a sensação não era nada boa.

Ela engoliu em seco, e novamente balançou a cabeça, desta vez para afastar tais pensamentos. Fosse o que fosse, tinha que ajudar aquelas pessoas. Para isso tinha que arranjar um meio de se locomover mais rápido. A pé naquele frio, ia acabar entorpecida e sendo morta sem nem poder se defender direito. Procurou pelos cavalos dos homens caídos da taverna.

Como em resposta à seus devaneios, ela ouviu um relincho próximo. Virou-se e encontrou os cavalos deles em um local mais adiante. Talvez os homens não tivessem amarrado os animais corretamente, pela pressa que tinham, e assim eles fugiram, mas que por algum motivo, pararam um pouco mais para frente.

A garota aproximou-se de um dos animais e sorriu-lhe ao mesmo tempo em que conversava baixinho em seu ouvido para acalmá-lo.

– Você há de me servir.

Acariciou a crina do cavalo e em um gesto rápido e preciso, montou no animal induzindo-o a galopar com velocidade em seguida. Qualquer um que a visse no cavalo, haveria de se espantar com a habilidade com que ela manejava o animal. Forwën procurou dirigir-se à Casa Grande na Praça Central. Era de lá que vinham os gritos.

Antes de chegar ao local, entretanto, ela encontrou ao longe o terceiro cavaleiro que vira quando espiara pela janela da taverna. Ele também a vira, reconhecendo também o cavalo do companheiro. Imediatamente sacou de sua espada e esporeando o seu cavalo, aproximou-se de Forwën.

– Alto! Quem é você? – interpelou o cavaleiro – pela sua aparência, não parece ser alguém daqui.

Ela manteve o olhar e respondeu:

– Eu sou Forwën e vim pedir para que se retirem desta vila!

– Pedir? – ele riu – com que audácia você vem nos pedir uma tolice dessas? E ainda mais roubando um cavalo de um companheiro nosso e armada dessa jeito?

– Roubado não, emprestado – ela replicou – O seu amigo não quis ouvir o… “meu pedido”. Mas isso não interessa. O que interessa é: onde estão os seu líderes?

O homem espantou-se. Do que diabos aquela mulher estava falando?

– Líderes? O Bando das Duas Espadas só tem um líder!

– Ora vamos – Forwën deu de ombros – a quem você realmente segue? Laighas ou Nynther?

Ante a essa pergunta, o homem calou-se pensativo. Pôs-se a coçar o queixo com uma das mãos enquanto que a outra segurava as rédeas. Como aquela forasteira sabia tanto? – Era a pergunta que fazia a si mesmo. Ele olhou fixamente para Forwën e a avaliou de cima a baixo. Uma bela mulher jovem, com certeza estrangeira, usando uma armadura e portando uma espada com ar ameaçador era realmente uma novidade para ele. Novo olhar e desta vez de um modo malicioso. Eis que uma idéia acabara de lhe ocorrer. Respondeu então lentamente:

– Você quer ver o Laighas? Então tudo bem, posso te guiar até ele.

Agora foi a vez de Forwën ficar pensativa. O bandoleiro de súbito, mudara o seu modo de falar. Ela sabia que ele planejava algo, e pelo modo que a olhara, tinha quase certeza de suas intenções.

“- Ele deseja me entregar de mão beijada ao líder dele, mas se ele acha que sou idiota, está muito enganado. Tudo o que eu preciso fazer é matar o tal do Laighas. Assim a moral desses bandoleiros ficará abalada. É então que o povo da vila poderá agir”. – Ela pensou.

– Muito bem, leve-me ao Laighas.

O homem sorriu:

– Acompanhe-me – disse e virou-se novamente esporeando o cavalo.

Enquanto isso, na praça, Laighas tranquilamente observava em cima de seu cavalo a movimentação dos homens. Com satisfação ele via os pobres lavradores desesperados em proteger os seus bens, obtidos pelo suor e trabalho árduo.

Tudo para no fim ser entregue às mãos daqueles bandoleiros nojentos!

Laighas sorriu. Sim, tinha que ser daquele jeito mesmo. Aqueles aldeões covardes tinham muito é que agradecer por no fim serem poupados. É verdade que alguns deles foram espancados por terem tentado barrar o caminho dos homens, mas ora! Eles estavam apenas fazendo o serviço deles. Quem mandou atrapalhar? Tinham que agüentar as conseqüências!

Ele sorriu novamente, mas desta vez com crueldade. Ele bem que gostaria de ensinar uma lição de verdade àqueles covardes, mas Nynther proibia mortes inúteis. Se pelo menos algum deles quisesse ousar ser um herói e enfrenta-los… aí não haveria desculpa, teria que morrer.

A bem da verdade é que o povo de Brantorm é um povo pobre e pacífico. A vila, localizada em uma região remota sempre tivera dias de paz, mesmo em anos conturbados. Jamais algum exército passou por lá. Apenas os viajantes, como Forwën. Porém, fora isso, nada de mais. Talvez a única vez em que tiveram seus dias de terror, fora quando da primeira vez em que os bandoleiros investiram na vila, anos atrás, como dissera o taverneiro. Mas isso fora realmente há muito tempo, quando nem mesmo Nynther era o comandante do bando.

Por situar-se justamente nessa região afastada em área setentrional, as notícias raramente chegavam lá. O melhor meio de comunicação, era o dos viajantes que apareciam por lá ou das pessoas das outras vilas. A vila nem mesmo soldados tinha. E isso porque ela ainda fazia parte do território de Lehainas, um reino grande e pequeno ao mesmo tempo.

Desde que o Rei e a Rainha de Lehainas foram assassinados e o irmão do Rei assumira o lugar, o reino passava por algumas dificuldades em sua política interna e externa. Não que não houvesse tais intrigas. Como em todo governo, sempre existiram os problemas de política, porém, agora tais problemas pareciam ter aumentado de intensidade. A administração passara a relaxar quanto aos problemas internos e algumas localidades do reino foram praticamente esquecidas, como a vila de Brantorm. Outras, porém, sofriam com os costumeiros impostos excessivos. O motivo era a política externa. O vizinho reino de Miriath, um império comercial e militar de extensão territorial gigantesca, passara a agir em sua política agora expansionista. Alguns reinos como o de Garavia e Kalinäe, próximos, tiveram que fazer acordos para não serem invadidos, enquanto que o orgulhoso reino de Flandor que também faz fronteira com Lehainas, resistira, tendo as suas terras impiedosamente ocupadas.

Em Lehainas a situação é parecida tanto em relação a Garavia, quanto a Flandor. Ainda há resistência, pois não há ocupação da terra, porém há o pagamento de um tributo imposto por Miriath.

Tudo isso eram sombras que pairavam naqueles que tinham conhecimento da situação política do reino. Para a maioria dos habitantes entretanto, tudo parecia distante. E para os habitantes de Brantorm, mais ainda. Por isso, a remota vila tinha os seus dias de paz, mesmo estando mais próxima de Miriath do que de Lehainas. Ninguém seria louco de invadir o reino por ali, região amplamente montanhosa e de difícil acesso para um exército transpor. A informação ali, quando chegava, era inteiramente deturpada por causa da longa distância que tinha que percorrer.

Por sinal, esse foi um dos motivos de Forwën ter utilizado seu nome e não um pseudônimo qualquer. Ela sabia que seus cabelos brancos chamavam a atenção. Aliás, não só os cabelos, mas sua aparência em si é que atraía os olhares. E isto dificultava a sua vida, afinal, pois em Lehainas ela era procurada. O real porquê porém, será explicado mais adiante. Por ora nos atemos a Laighas.

O sorriso desaparecera de sua boca ao se lembrar do comandante. Laighas simplesmente não entendia a “benevolência” de Nynther em querer poupar vidas. Aqueles pútridos aldeões não valiam nada! – Laighas cuspiu irado nesse momento – e ainda havia aquilo dos homens não poderem se divertir. Uma só mulher? No que diabos ele estava pensando?

Ele permaneceu assim em seus devaneios, quando ouviu som de cascos de cavalos próximo a ele. Olho e viu um de seus comandados acompanhado de uma bela moça de cabelos brancos. Curioso, aprumou o olhar.

De fato era bela, a pele alva e fria realçava seus exóticos cabelos e seus verdes e penetrantes olhos. Laighas apeou de seu cavalo e esperou chegarem.

A um pequena distância dele, Forwën também desmontou e o mirou com atenção.

– Senhor, esta senhorita aqui desejava lhe falar. Como ela insisti muito, eu a trouxe para cá. – Falou sorrindo e com ironia o comandando.

– Muito bem Sergil – respondeu Laighas com o olhar fixo em Forwën – fez muito bem. Pode ir agora.

– Sim, senhor.

Dito isto o homem afastou-se e foi contar o ocorrido aos outros companheiros na praça. Alguns deles notaram Forwën e haviam parado seus afazeres para observar curiosos o que iria acontecer com seu chefe. Todos eles observavam com o costumeiro sorriso malicioso que homens desta estirpe costumam fazer.

Forwën mirava o homem de alto a baixo ao mesmo tempo em que prestava atenção no local, estudando-o para ver se conseguiria obter alguma vantagem do terreno.

Nada de mais. A praça, se é que pode ser chamada assim, não passa de um local aberto, em forma ovalar cujo piso é de terra batida. Geralmente as pessoas se reuniam ali para conversar ou secar a carne obtida na caça. Por ali também passavam pessoas carregando produtos cultivados e mercadores pobres que vendiam suas mercadorias às pessoas que vinham de outras vilas. Certas frutas só podiam ser cultivadas ali, mesmo sendo a região montanhosa. Ao sul do local fica situada a Casa Grande, já descrita acima. Na direita, a capela também descrita. Ao norte em direção às montanhas, há um muro inacabado, que serve como apoio àquelas pessoas que arrumavam suas vendas com caixotes. Era de lá que os homens de Laighas pararam de roubar a comida dos caixotes para observar o que aconteceria. Por fim, ao leste, ou seja, na esquerda situam-se apenas algumas casas simples e tortuosamente entre elas, a rua principal. Nada de mais. Por causa da umidade, algumas partes do piso estavam moles. Em dias de chuva então, era sempre um desastre de lama úmida e pegajosa.

“- Nada que possa me servir” – pensou Forwën.

Laighas voltou-se para Forwën com o mesmo sorriso cínico de seus comandados e falou com uma mesura irônica:

– Bem, bem minha senhorita…

– Forwën – respondeu a moça.

– Bem minha senhorita Forwën – tornou Laighas – a que devo a sua agradável presença? Certamente pelo modo que se veste e pelas suas feições vejo que não é habitante destas paragens.

– Decerto que não, senhor Laighas – respondeu friamente Forwën, com os olhos fixos em Laighas o que o desconcertou um pouco – não pertenço realmente a esta região. Sou apenas uma viajante que quis encontrar um pouco de paz nesta aldeia. Paz que vocês estão atrapalhando.

– Oh! Mil perdões senhorita! – ironizou o bandoleiro – Não queríamos de modo algum perturbar o seu descanso. Por favor, queira perdoar a estes rudes homens que apenas tentam fazer o seu trabalho…

– Trabalho? – interrompeu Forwën – Trabalho? Roubar e ameaçar pessoas mais fracas que vocês? Usufruir de forma fácil aquilo que outros trabalharam arduamente para obter? Largue de hipocrisia!

Laighas apenas aumentou o seu sorriso e Forwën observou melhor o homem que a respondia com frases cínicas e impertinentes. Era um homem alto e loiro. Seus longos cabelos terminavam em seus ombros em ondulações. A adornar sua morena face, uma malfeita e curta barba. Seus olhos denotavam uma agressividade um tanto comum em homens desta espécie. Trajava uma armadura de couro com um camisão de bom linho por baixo. Notava-se um certo desgaste na roupa, certamente pelas batalhas que aquele homem já travara. Finalmente, usava longas bota de montar, um tanto gastas também. À primeira vista se via que era um homem forte. A espada longa pendia-lhe na cintura. Forwën pensou:

“- Maldição, este homem é diferente de muitos. Vai ser difícil subjuga-lo. Imagino então como deverá ser o tal do Nynther. Falando nisso, onde está ele? Não está na cidade?

Laighas riu alto:

– Hipocrisia? Escute mocinha, somos homens que só sabem lutar. Estes aldeões ridículos têm mais é que calar a boca e nos entregar quietinhos os seus pertences para não se machucarem!

Forwën fez cara de desprezo e sacou sua espada.

– Não passam de parias, isso sim! Já basta desta conversa ridícula. Homens como você me enojam. Se acham superiores mas não passam de meros vermes da sociedade.

O sorriso desapareceu do rosto de Laighas.

– Escute aqui sua tola. Eu quis manter uma conversa amigável com você, mas vejo que é impossível. Não adianta, eu vou trazê-la a força! – também sacou de sua espada.

Forwën notara a ênfase em que ele pronunciou a palavra “trazê-la” e ficou confusa com o que ouviu.

– Trazer-me? Que história é essa?

Laighas tornou a sorrir e passou a mão esquerda pelo queixo, cofiando a barba.

– Conosco é claro! Você é perfeita para ser minha escrava pessoal, para me servir e… para algo a mais.

– Eu não iria com vocês nem morta. – Forwën fez cara de nojo.

– Ah, mas vai sim, e viva! – Rebateu Laighas.

Forwën nada disse. Sua mente estava apenas concentrada no homem. Sabia que o mero descuido seria fatal. Aquele homem era diferente dos comandados. Esses últimos, ao verem as posições dos dois que obviamente denotavam uma situação de combate, correram a ver de mais perto e ajudar o chefe caso necessário. Todos correram para perto, exceto um que foi para o outro lado. Era um jovem de cabelos e olhos negros.

Laighas fez um gesto para manter os homens a certa distância. Ele também estava concentrado em Forwën. Certamente ela não era uma mulher comum. Devia aproveitar qualquer brecha para rendê-la. E esse era outro problema: ela queria matá-lo, ele, apenas desarmá-la.

Não adiantava, tinha que tomar a iniciativa. Avançou com a espada formando um arco horizontal ao que encontrou resistência. Forwën defendera o golpe violento, mas conseguiu manter-se firme em sua posição. Ela aproveitou o momento para deslizar a espada em direção ao bandoleiro. Porém aí ela encontrou apenas o vazio. Ele havia se esquivado dando um salto para trás. Aproveitando o desequilíbrio de Forwën neste golpe, Laighas imediatamente postou-se para frente, atacando com o ombro e empurrando-a para trás.

Os homens vibravam:

– Isso aí chefe!

– Ensina a ela uma lição!

– Dá nela!

Eles, que estavam a assistir a luta, torciam para o seu chefe com incentivos ou comentários jocosos.

– Você é valente. Sabia que eu gosto de mulheres violentas? – Ironizou Laighas.

– Cale a boca – respondeu Forwën avançando com um movimento direto, mas em postura baixa.

– Mas o que diab…? – Laighas começou a falar.

Esquivando para o lado esquerdo de Laighas, Forwën em um impulso saiu de sua postura baixa e alcançou o flanco dele. Ela aproveitou o momento e desferiu um golpe baixo para cima visando o rosto de Laigha.

Por uma fração de segundo, Laighas em um extremo esforço conseguiu torcer o pescoço para o lado, esquivando a face, mas não evitando um corte que lhe atingiu a testa.

Ele cambaleou um pouco para trás, tonto, mas conseguiu ficar de pé. Laighas sentiu o calor acima dos olhos. Passou a mão no rosto e viu o seu já tão conhecido líquido vermelho. Sangue. Por sorte, o corte foi bem superficial. Porém a visão de seu próprio sangue o enfurecera profundamente.

– O que você pensa que fez sua… – Eu ia poupar sua vida, mas agora vou arrancar o seu couro para você aprender o seu verdadeiro lugar! – Gritou Laighas.

– Cale a boca – repetiu Forwën – você deveria ter ficado quieto para ser finalizado.

– Vá para o inferno!

Dito isto, Laighas mudou sua postura e avançou para Forwën. Imediatamente ela postou-se para o lado afim de aproveitar a brecha que fatalmente ele abriria por causa de sua investida. Para sua surpresa, Laighas parou seu movimento antes do esperado e atacou em um ângulo baixo a altura dos joelhos dela o que a fez defender essa região já visando o contra-ataque com mais velocidade. Ele, entretanto, foi mais rápido e mirou o braço direito dela fazendo-a recuar por sua vez.

Forwën nem bem havia se estabelecido do golpe quando sentiu a sombra de Laighas já próxima a si, bem a tempo de receber seu chute em sua coxa, parte desprotegida da sua armadura, fazendo-a se ajoelhar.

Laighas cuspiu para o lado.

– Isso, isso mesmo. Agora as coisas estão certas. Você aí ajoelhada e eu de pé. Conheça o seu lugar mulher.

Os homens que haviam emudecido e paralisado ante a visão de seu chefe, agora respiravam aliviados. O sub-comandante era mais forte. Aquela mulher agora iria receber o que merecia!

Para Forwën, a situação não era nada boa. O chute lhe deixara com a coxa vibrando de dor. Além disso, a espada lhe parecia ainda mais pesada. Olhou para o braço e viu o sangue. O primeiro ataque de Laighas lhe atingira realmente, a despeito de sua esquiva.

“- Maldição” – pensou – “só me resta um ataque certeiro para acabar com este canalha.”

Laighas erguera o pé para chutar Forwën e deixá-la ao chão de vez. Era agora ou nunca. Ela agarrou a oportunidade e, segurando a espada firmemente com as duas mãos, aplicou um golpe de modo a rasgar a armadura dele. O chute ainda assim lhe atingira fazendo-a rolar no chão.

Forwën se recompôs com dificuldade e viu Laighas também no chão, porém vivo. Fato comprovado ainda mais por ele ter se levantado. Ela viu com angústia que o corte não atingir a carne, apenas a indumentária. Ele caíra pelo desequilíbrio a que fora submetido.

– Uma pena, não? – Riu Laighas. – Acho que você desperdiçou uma boa chance. Agora só me resta acabar com você minha mocinha valente.

– Não pense que ainda me rendi idiota.

– Muito bem, muito bem – ele aplaudiu – será que você também é boa assim na cama?

– Desgraçado!

Forwën se levantou e avançou furiosamente para Laighas. A situação agora se invertera completamente. Ele esperou com a espada em guarda para receber o ataque. No momento em que as lâminas se encontraram, uma voz fez-se ouvir acima das demais:

– Já chega!

O círculo de homens abriu para dar passagem ao homem que falara. Nynther avançou com Chander atrás.

Os dois combatentes pararam seus movimentos tal era a força da voz de Nynther. Uma voz forte e fria, um tanto desprovida de emoções.

Forwën mirou o tão famoso comandante do bando. Ela pensava que iria encontrar um outro humano, tal qual aqueles bandoleiros, maltrapilho, ou pelo menos como Laighas, mas, Nynther à primeira vista, era diferente. Havia nele uma altivez que diferia dos outros. Mesmo sua face, preenchida pela barba rala, era de um aspecto bem melhor que o dos demais. Jamais ela poderia imaginar que seria um meio-elfi a comandar aquele bando. Estreitando o olhar, ela procurou alguma coisa que identificasse melhor aquele homem, mas nada encontrou, nem mesmo um broche escondido ou algo do tipo.

Laighas limpou o sangue que já começava a coagular em sua resta. Ao ver Nynther, ele diminuiu sua atitude arrogante, mas visivelmente estava furioso por ter sido interrompido e logo por ele! Ele queria dar a aquela mulher uma lição. Agora seria mais difícil com o comandante ali do lado.

– O que diabos está acontecendo aqui? – Nynther perguntou tanto aos homens quanto a Laighas. – Quem é essa mulher? – E, ao mesmo tempo em que perguntava, seus olhos por um instante se cruzaram com os dela. No mesmo instante percebera como todos os outros, que não se tratava de uma mulher comum.

– Apenas uma pequena diversão – Laighas respondeu. – Essa mulher aí é a nova serva do bando.

Forwën assumiu nova postura defensiva. Chamas faiscaram de seus olhos verdes.

– Eu não sou escrava de ninguém!

Nynther fitou Forwën com mais atenção. Alguns segundos se passaram sem que ninguém pronunciasse uma única palavra. O som só era quebrado pelo relincho dos cavalos. Ambos perceberam a profundidade do olhar do outro. Ela, perturbou-se pela severidade e jeito afiado, ele, pelo envolvimento e brilho. Permaneceram assim calados. Os homens e Laighas esperavam para ver o que o comandante ia dizer. Ninguém ousava quebrar aquele silêncio. Até que finalmente Nynther resolveu se pronunciar.

– Uma mulher que não é da vila e uma guerreira. Ótimo, ela virá conosco – Nynther pronunciou essas palavras sem uma única emoção. Além disso, parecia a coisa mais natural do mundo ela ser obrigada a seguir com eles.

Forwën ergueu a espada. Estava estupefata pelo modo de agir de Nynther e ao mesmo tempo, receosa do que poderia lhe acontecer se fosse capturada e obrigada a seguir com aqueles homens.

– Só se for a força.

Nynther que havia se virado de costas, parou por um tempo ante as palavras dela. Parecia que ele não estava acostumado a ser contrariado. Ele respirou fundo por um momento e de repente se virou em um movimento muito rápido, sacando uma das cimitarras e realizando um ataque tão veloz que mesmo que o corpo ferido e cansado de Forwën estivesse são, não conseguiria acompanhar.

Perplexa, ela sentiu que seria atingida. Desta vez, ela fechou os olhos. Forwën já podia até mesmo sentir o golpe. Agora não tinha mais jeito, simplesmente entregou-se. O golpe fora forte e vigoroso. Porém, ela não se sentiu atingida em nenhum canto do corpo. Sua mão direita, entretanto, ficou bem mais leve. Abriu os olhos e viu. Ela compreendera no exato instante. O golpe atingira sua espada, fazendo-a largar a arma que voara longe e caíra na lama. Finalmente estava completamente desarmada.

Nynther deu de ombros. Sua face não demonstrava a menor expressão, como se aquilo não fosse nada de mais.

– Tola, seu corpo já não agüenta mais nenhuma luta. Nem mesmo segurar uma espada você está conseguindo agora. – Neste momento ele colocou a mão em uma bolsa de couro que carregava e, tirando um pano de dentro desta, o atirou para Forwën. – Limpe esse sangue se prepare para partir.

Forwën, perplexa, segurou o pano, mas não ofereceu a menor resistência quando amarraram suas mãos. Mesmo que quisesse, ela não poderia fazer nada. Com Laighas ela poderia lutar até o fim, mas em relação a Nynther, havia algo naquele meio-elfi que ela não compreendia, exceto por uma coisa – Ante àquela luta psicológica travada apenas pelo embate dos olhares ela perdera. Definitivamente. Já não havia nada que ela pudesse fazer a não ser aceitar o seu destino, seja o que lhe viesse a ser imposto.

Ela fora vencida, completamente.

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