Noite no Quarto – O Texto

Aqui neste blog eu já falei diversas vezes no fato de que quando se cria uma história em quadrinhos, deve-se lembrar que a palavra “história” vem antes.  Não se enganem, eu não sou o primeiro a falar isso. NEM DE LONGE! Tudo o que eu escrevi aqui a respeito disso, foram informações que li na internet de pessoas bem mais capacitadas. Tais textos abriram minha mente e me fizeram ter minha própria visão do assunto (por isso os tópicos aqui, que obviamente contem a minha própria interpretação também).

Bom, conversa mole a parte, vamos ao assunto deste post aqui. Quando elaborei Noite no Quarto, é claro que eu já tinha o contexto da história e a personagem, bem como o seu arquétipo. O passo seguinte foi determinar os elementos que iriam compor a história e… o texto! Geralmente em quadrinhos, o roteiro é algo bem parecido com roteiro de cinema ou teatro. Descreve-se a ambiência, as ações do personagens e as falas.

Eu prefiro fazer ainda algo a mais. Além desse roteiro “técnico”, em Noite no Quarto, fiz também a narrativa completa. Um conto propriamente dito.

Portanto, abaixo eu ofereço a vocês este conto. Contado em terceira pessoa. Se na HQ Noite no Quarto você como leitor, acompanhou a história na visão de Mina, ou seja, em 1ª pessoa, aqui no texto Noite no Quarto você poderá acompanhar a história sob o seu próprio olhar.

Boa leitura!

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Mina sentiu um calafrio percorrer todo o seu corpo. Por um instante ela tinha se perdido em pensamentos distantes até retornar para a realidade. Tudo estava do jeito que ela havia deixado quando viajara pelo mundo do inconsciente: o piso de ladrilhos cinzentos e um pouco sujo, os boxes dos sanitários (alguns riscados com mensagens obscenas), o conjunto de pias, pelo menos limpas e o espelho, no qual ela fitou a imagem de uma menina de seus quinze anos, nem magra e nem gorda, baixa, com um olhar triste e cansado, mas com olhos verdes vivos e um belo cabelo liso e curto em um tom de castanho claro. Ela estava usando um pijama de tom rosado: uma blusinha e um short. A garota na imagem era ela mesma.

Quando retornou de seus devaneios, Mina pensou no que ela estava pensando antes, mas sem sucesso. Ela sabia que era mais um daqueles apagões, involuntários ou não que as pessoas tem.

Nesse momento, ela sentiu que segurava algo em sua mão direita. Quando olhou, viu que era um recipiente branco no qual havia uma etiqueta indicando que era um remédio controlado, com tarja preta e onde lia-se o nome: Risperidona. Foi então que ela lembrou-se do remédio que tinha que tomar naquela noite. Rapidamente ela tomou o comprimido, fechando a tampa do remédio logo em seguida e pousando-o na pia.

Novamente ela atentou à sua própria imagem refletida no espelho. A menina na imagem parecia querer dizer algo, mas tudo o que conseguiu fazer foi abrir um pouco os lábios sem produzir som algum. Mina balançou a cabeça e procurou afastar qualquer pensamento que pudesse a vir lhe ocorrer naquele momento. Ela já tomara o remédio, podia agora, retornar para seu alojamento.

O problema era justamente esse: retornar para o seu quarto. Para uma pessoa normal, percorrer os poucos metros que separavam o banheiro do quarto era uma coisa absolutamente simples. Mas, para Mina isso era algo mais complicado. Quando ela ouviu a porta do banheiro fechar, ela estremeceu. Novo calafrio, o corredor vazio parecia grande e ameaçador, apenas uma fraca luz irradiava pelas janelas laterais. Mina recuou dois passos e esbarrou na porta do banheiro. Ela conhecia bem essa sensação, não era a primeira vez que a sentia e nem seria a última, ela sabia. Começou a suar frio, ao mesmo tempo em que sentia o seu coração bater cada vez mais rápido.

Ela sabia que havia algo ali, espreitando-a, pronto para atacá-la, ela sabia. Ela estava crescendo em pavor cada vez mais. Até que ela sentiu algo apertando a sua garganta sufocando-a. Imediatamente ela levou as mãos para tentar tirar esta presença invisível, mas sem sucesso. Suas pernas bambearam e por pouco ela não soltou o remédio que estava seguro em sua mão direita.

Então, de repente, ela correu desesperadamente, emitindo um grito sufocado, procurando fugir daquilo que a ameaçava. Cada vez que seu pé tocava no chão, seu chinelo fazia um barulho seco que ecoava pelo corredor, aumentando ainda mais o seu inexplicável pavor. Seu único pensamento era correr, correr para salvar a si mesma seja lá do que for. Quase tropeçando várias vezes, ela por fim conseguiu chegar a uma porta de madeira, quase indo de encontro a ela. Finalmente ela pode respirar aliviada. Era o seu quarto. Ela não sabia como, mas instintivamente em sua correria, ela se dirigiu justo para a porta de seu quarto, o que era realmente uma sorte, pois ela nunca conseguira se acostumar com o local e muitas vezes errava a porta por onde deveria entrar o que já lhe causou diversos aborrecimentos com as outras garotas do alojamento.

Isso porque Mina morava em um alojamento feminino de estudantes. Era um local grande construído em alvenaria. Algumas áreas estavam muito bem conservadas, enquanto que outras nem tanto. O local consistia de três andares, nos quais a administração funcionava no primeiro andar enquanto que os dormitórios no segundo e terceiro. Extensos corredores conectavam as áreas de cada andar, o piso era revestido por ladrilhos hidráulicos de um tom de cinza azulado, enquanto que a parede era pintada em tom bege. Janelas acompanhavam o corredor a cada cinco metros. Pela manhã o local parecia até um pouco alegre e agradável de morar, porém de noite, o ambiente ganhava uma aparência lúgubre. Geralmente, duas garotas moravam em cada dormitório, entretanto quando Mina chegara, não havia ninguém para ficar com ela e por sorte ou não ela acabou ficando sozinha em um dormitório particular, um pouco menor que os outros, mas enfim, apenas dela. E ela era grata por isso. Não que ela não gostasse de conviver com as outras pessoas, mas o problema é que as outras pessoas é que não gostavam do convívio com ela. As outras meninas achavam-na esquisita e digna de deboches e piadinhas de mau gosto nos corredores. Claro que isso serviu para deixar a baixo-estima que Mina tinha de si mesma em níveis ainda inferiores, mas de certa forma, ela estava já se acostumando a isso. No colégio, era pior, bem pior. O que ela não compreendia era o porquê de ser assim. O que, afinal, ela tinha feito de mais? Era o que se indagava. Às vezes a raiva lhe subia as faces, mas na maioria das vezes, era uma forte depressão que a assolava. Sim, ela estava só. A maioria das meninas que viera para o dormitório chegara lá porque os pais moravam longe e elas precisavam estar na cidade para estudar ou realizar outras atividades. Mina também era uma estudante, mas sua situação era bem diferente da das outras meninas. Para início de conversa, ela era órfã, jamais chegando a conhecer os seus verdadeiros pais. Quando pequena ela morara em um orfanato católico, mantido por um padre. O tempo passou e Mina mostrou-se uma pessoa inteligente, capaz de aprender rápido o que tinha que ser aprendido. O resultado é que ela fez o teste e passou com excelentes notas para a prova de seleção do melhor e mais caro colégio da cidade. Foi uma das poucas vitórias de sua vida, afinal, ela obteve uma bolsa de estudos paga pelo próprio colégio a alunos que se destacam. Com isso ela conseguia se manter, pois ela não precisava de grandes confortos no dormitório, mas ainda assim era uma menina, uma mulher afinal. Ela tinha como qualquer garota a vontade de comprar coisas de que necessitava. Portanto ela foi obrigada a se virar bem antes de suas colegas, a maioria meninas fúteis que se preocupavam apenas com o que aquele garoto cinco anos mais velho iria pensar dela se ela se oferecesse para uma noite de sexo.

Mina suspirou de contentamento. Estava salva! Restava-lhe apenas abrir a porta, ligar a luz do quarto e escapar daquelas trevas sufocantes.

Ao entrar, o quarto estava todo banhado pela penumbra, pois apesar da escuridão total, havia uma janela que deixava entrar as luzes emitidas das edificações e postes de iluminação da cidade, ao longe. O ambiente em seu todo não passava de um cubículo de nove metros quadrados, no qual havia apenas uma cama, uma escrivaninha, um criado mudo com um abajur em cima e um pequeno armário de madeira. A cama era, obviamente, de solteiro. Nos outros quartos em que dormiam duas garotas, havia um beliche de madeira. A escrivaninha era de metal e madeira. Nela estavam alguns pertences de Mina, como uma pequena escova, seu celular e livros do colégio. Também havia uma pequena luminária preta.

Ela sentiu-se um pouco mais segura ao adentrar naquele recinto já tão conhecido. Aquele local pelo menos, a despeito da escuridão, era um lugar seu. Por um tempo ela encostou-se na porta, procurando recuperar o fôlego. Finas gotas de suor escorriam-lhe pela testa. Mina as enxugou com o braço e dirigiu-se à sua cama, deixando o recipiente do remédio na escrivaninha ao lado do livro de Matemática que ela estivera estudando pela tarde anterior.

Mina sentou-se na cama ao mesmo tempo em que puxava o lençol para se cobrir. Não que ela estivesse com frio, mas aquele fino tecido branco lhe proporcionava, ela não sabia dizer como, uma espécie de camada protetora. Coberta, ela esticou o braço para puxar a cordinha do abajur e ligar a luz. É que a garota sempre dormia com a luz ligada. Mesmo o quarto sendo um local um pouco mais seguro para ela, ainda assim as trevas penetravam por ali. Ela ouviu o “clique” do pequeno interruptor interno do objeto. O mais importante, porém, a luz, não veio e o som perdeu-se naquela escuridão. Mina já estava em posição para dormir, com a outra mão embaixo de sua cabeça quando ficou apreensiva. Puxou de novo a corda. Novo clique e nada da luz aparecer. Agora ela realmente estava ficando preocupada. Seu coração começou a bater mais aceleradamente e um frio percorreu-lhe a barriga. Clique, clique, clique. Por diversas vezes ela puxou a cordinha e nem sinal de vida do objeto.

– Liga, liga, liga! – Mina pensava desesperançosamente. Até que, convencida de que o abajur realmente não ligaria por mais que ela puxasse a corda, desistiu.

A menina, enrolada em suas cobertas, ergueu o seu tronco apoiando-se de ambos os braços e instintivamente virou-se em direção à porta. Ainda havia o interruptor do próprio quarto. Esta noite ela dormiria com a luz do quarto, acesa e no outro dia, compraria, mesmo que tivesse que vender algo seu, uma nova lâmpada para o abajur. Ela correu em direção à porta. O interruptor branco, lá estava entre a esquadria e o armário. Mina não perdeu tempo: apertou o botão do interruptor e… para seu completo pavor a luz também não acendeu! Por um tempo ela ficou paralisada a fitar a lâmpada elétrica.

Então, quebrando este torpor temporário, veio o ataque de histeria. Mina perdeu o controle de si mesma para o demônio chamado pavor. Ela apertou a maçaneta da porta e tentou abri-la sem sucesso. A maçaneta estava emperrada! Aquilo foi o fim para a razão que cedeu o lugar completamente ao mais completo desespero.

– SOCORRO! ALGUÉM, ALGUÉM POR FAVOR! TIRE-ME DAQUI! EU QUERO SAIR! EU QUERO SAIR! – Com os olhos esbugalhados, completamente cegos, a face de Mina contorceu-se pelo medo. Ao mesmo tempo em que gritava, ela batia na porta com toda a força que pudesse reunir em seu frágil corpo. Uma ânsia enorme lhe dominava. Ela queria sair dali, afinal estava presa em uma escuridão ainda pior do que quando saíra do banheiro. Arrombar a porta era a sua prioridade.

Ela bateu, bateu e bateu na porta por diversas vezes. E tanto o fez que em dada hora ela machucou a sua mão esquerda fazendo-lhe soltar um grito fino de dor. Aquilo pelo menos a fez voltar à razão no mesmo instante. Segurando com a mão direita a outra mão machucada, tentando conter a ardência que agora sentia ali, ela olhou tristemente para a porta até que sentou-se no chão de costas para a mesma, com as pernas entrepostas e a cabeça entre elas. Nada mais lhe restava a não ser ficar ali tremendo até que a luz da manhã despontasse no céu.

Tremendo porém, ela teve ainda um pequeno raio de esperança a mais. Ela se lembrara de algo: a janela! – Claro que ela não poderia sair por ali, afinal seu quarto situava-se no segundo andar. Mas pelo menos, sentir a brisa noturna poderia lhe fazer bem e fazê-la esquecer que estava presa em uma prisão de poucos metros quadrados. Ela levantou-se apoiada em uma perna, e olhou esperançosa para a janela. Tinha que dar certo! Ao aproximar-se, o receio novamente preencheu o seu coração. Mina respirou fundo e, esticando a mão, puxou a janela para o lado. Novamente sem resultado. A janela também estava emperrada! Seu olhar era de completa indagação. Assim como com o abajur, assim como a porta, por diversas vezes ela tentou puxar a janela, mas sem obter o resultado que queria. Sentindo-se completamente fraca e impotente, ela sentou-se na cama passando as mãos entre os cabelos. Até que finalmente ela desabou-se em lágrimas de desespero. Seus soluços sufocados ecoavam fracamente pelas paredes. Parecia que o quarto em si estava zombando dela.

Permaneceu sentada naquela posição, com as mãos entre o rosto e chorando, por um bom tempo até que as lágrimas simplesmente acabaram. Ou talvez, ela tenha se cansado de tanto chorar. Ela tirou as mãos do rosto que estava um pouco inchado, por causa do choro. Seus olhos estavam vermelhos e sem expressão. Mina estava olhando sem ver. Lentamente ela foi deitando como se estivesse em um estado letárgico. A garota não passou nem cinco segundos com os olhos fechados quando novamente os abriu ao mesmo tempo em que se levantava rapidamente. Se antes ela sentiu medo ou pavor, o que ela sentiu agora é algo que não tem como ser descrito com palavras. O que seus olhos fitavam era algo completamente bizarro e irreal apesar de não ser novidade para ela.

O quarto parecia ter crescido em tamanho ao mesmo tempo em que ele se retorcia e contorcia em movimentos ondulatórios. Se antes as trevas pareciam sufocar-lhe, agora elas pareciam terrivelmente ameaçadoras. Mina simplesmente ficou paralisada antes a este espetáculo macabro. De repente, risos. Muitos risos ecoaram por diversos cantos do quarto. Verdadeiras gargalhadas de crianças, adolescentes, adultos e velhos. Homens e mulheres. Risadas, muitas risadas.

Mina tapou os ouvidos com ambas as mãos ao mesmo tempo em que pedia: – Parem com isso! Calem a boca. – O som dos risos, porém, ainda entrava em sua mente. Ela apertou as mãos com mais força, fazendo-lhe doer a mão esquerda, machucada. E o som ainda continuava, com mais intensidade.

– CALEM A BOCA, TODOS VOCÊS!!! – Mina fechou os olhos e gritou a plenos pulmões, tapando ainda os ouvidos com força. Nesta hora, novamente um frenesi furioso dominou-lhe. Ela gritava e urrava furiosa, sentindo-se cada vez menor ante aquele quarto dominador, como um animal acuado. Ela jamais soube precisar o tempo que passou ali até cair novamente em razão.

O tempo passou, as risadas haviam parado e ela encontrou-se novamente deitada na cama agarrada fortemente em seu travesseiro, mas desta vez sem estar coberta no lençol. Ela ainda tremia. O suor escorria-lhe novamente. Porém não apenas na face, mas em todo o seu corpo. Ela sabia o que viria agora. Como dito antes, isso não era novidade para ela, mas Mina jamais se acostumara com essa sensação. Esse inferno que ela tinha que passar. Tudo o que queria era acordar daquele pesadelo. Afinal, só podia ser um pesadelo. Havia algo a mais que a atormentava também. Esse algo a mais era uma coisa da qual ela tinha medo e ao mesmo tempo em que a amava e a queria como um drogado quer a sua droga. Uma voz feminina ecoou no recinto.

– Não fique assim minha querida. Tudo há de passar, como sempre passou. Não tenha medo. Você sabe que isso é para o seu bem. – A voz não era alta nem baixa, porém bastante suave. Mina ouviu a voz como alguém tivesse falando com ela bem próximo ao seu ouvido.

– V-você demorou… – Mina balbuciou. Ela ainda estava deitada, porém agarrou-se com mais força ao travesseiro.

– Me perdoe querida, mas você é quem demorou a me chamar. Você sabe que é para o seu… nosso próprio bem. É preciso.

– Não quero…

– Você precisa.

– Não quero…

– Você precisa.

– Eu…

Neste momento, Mina novamente sentou-se na cama e passando de novo a mão entre os cabelos, inspirou ar e fechando os olhos gritou:

– NÃO QUERO! EU JÁ NÃO AGUENTO MAIS. QUERO SAIR DAQUI, ME DEIXE SAIR!

E sua voz perdeu-se entre as paredes de seu quarto. A outra voz simplesmente silenciara. Mina olhou em volta e o medo voltou a tomar conta de si. As paredes pareciam estar mais escuras e maiores. Sentada em sua cama ela parecia ainda menor do que antes. O que ela viu a deixou com mais medo ainda e deprimida. Nas paredes, rostos tomavam forma. Eram rostos, Mina sabia, de pessoas conhecidas, todos eles. Cada um deles olhava para ela e ria. A menina sentia-se como se estivesse nua sob a luz de holofotes plantados em todas as direções. As gargalhadas aumentavam gradativamente.

Mina se encolheu na cama. Ela sabia por que aquelas pessoas riam. Elas riam dela, riam porque ela era inferior, riam porque ela não valia nada perante elas. Por mais que tentasse, ela jamais seria alguém como aquelas pessoas. Deveria sempre se arrastar submissa a estas pessoas. Mina então falou chorosamente.

– Por favor, vão embora. Eu não aguento mais. Deixe-me em paz. Onde está você? Não suma, volte, eu preciso de você!

As gargalhadas ainda estavam lá. Mina não sabia mais o que fazer, não conseguia mais chorar, não conseguia fazer mais nada. Ela estava completamente à mercê da noite. Ela precisava daquela que falara há pouco. Precisava de sua droga inebriante.

– Me chamou minha querida? – Mina ouviu a voz se pronunciar, mais alta do que o som das risadas.

– Faça eles pararem, por favor! Por favor! – Mina implorou.

– Você sabe muito bem que eles não irão parar.

– Eu preciso de você.

– E eu de você.

– Então me ajude!

– Já estou lhe ajudando. Essa é minha ajuda.

– Mas… mas…

– Ouça querida. Você sabe que é preciso.

– Sei, mas tenho medo…tanto medo. Eu, não gosto.

– Eu também não gosto. Mas é o único jeito.

– Eu… sei…

– Não se preocupe eu estou aqui e sempre estarei com você.

De repente os risos aumentaram. Formas escuras surgiram das bocas dos rostos nas paredes e foram preenchendo o quarto. Elas eram como sombras e tinham um aspecto viscoso ao mesmo tempo. Mina estava pálida de medo e sem voz. Ela procurara articular alguma palavra, mas não conseguia. Tudo o que conseguiu fazer foi se agarrar ao travesseiro da mesma forma em que estivera antes. Ela sentia as sombras subindo pela cama e descendo do teto. Elas preencheram Mina e a prenderam, ali mesmo na cama. Presa ela estava, presa àquelas risadas e aos seus demônios interiores. Nem mesmo gritar ela conseguia mais. O terror preenchia sua face. Seus olhos viam o inexplicável e procuravam resposta para aquilo. As sombras cobriram tudo. Sombras que sempre estiveram junto dela desde quando ela tem memória. As sombras de seu passado obscuro que ela não consegue lembrar, as sombras de sua vida presente, humilhada por todos e desprezada, e as sombras do futuro, incerto e imprevisível. Horror, terror, tristeza, medo, pavor, raiva, ódio. Tudo aquilo estava reunido em Mina naquele momento. Estes sentimentos passavam por ela e giravam em sua mente como um turbilhão furioso. E ao mesmo tempo uma voz suave sussurrava em seus ouvidos palavras que atiçavam cada um destes sentimentos. Até que as trevas cobriram tudo por completamente e nada restou a não ser o vazio, o escuro absoluto.

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Mina abriu os olhos sentindo o calor em sua face. Piscando confusa e sentindo-se um pouco atordoada, ela levantou-se e viu que a luz do Sol irradiava pela janela. Já era de manhã. Ela balançou a cabeça como que para sacudir qualquer sinal de sonolência ainda restante. Ainda um pouco tonta ela notou que a janela estava aberta. Também notara que a luz do abajur estava acesa, como sempre. O raciocínio lhe voltara à mente. Ela tivera um pesadelo!

Olhando a paisagem de sua janela, o rosto de Mina denotava cansaço e depressão. É que ela já não aguentava mais ter que passar por sonhos ruins por quase toda a noite. Mina queria viver. Simplesmente poder viver, em paz. Ela suspirou alto. Era mais um dia que iria começar o que não a deixava nem um pingo feliz. Pelo menos, os fatos da noite passada não aconteceram de verdade.

Ela estava nestes pensamentos, quando sentiu uma pontada de dor. Mina então olhou para a fonte da tal dor. O horror novamente dominou a sua face.

Sua mão esquerda estava roxa e inchada.

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