Os Mistérios da Perspectiva – 1

Neste post eu vou começar a falar um pouco sobre um ponto que eu vejo nos desenhos e quadrinhos de muitas pessoas: a volumetria de certas coisas na perspectiva. Isso quando ela é desenhada.

Muitos acham a perspectiva um verdadeiro bicho-papão, quando na verdade não é. É algo relativamente simples de se fazer, porém meio trabalhoso… as vezes. (Não to falando da perspectiva técnica. Essa sim é UM SACO de se fazer).

Primeiro de tudo vamos pensar sobre o que é perspectiva. Muita gente fala, fala, mas qual é o verdadeiro conceito? Quando surgiu?

Vamos lá: A perspectiva, ou melhor chamando, Perspectiva Gráfica, é a projeção em um meio bidimensional de algo tridimensional. Traduzindo, desenhar uma imagem em 3 dimensões (comprimento, largura e altura) em uma superfície plana (uma folha de papel).

Aqui são aplicados os conceitos da Geometria Descritiva (ramo da geometria que permite representar uma imagem em 3 dimensões, mas não se preocupe, você a utiliza mais no chato desenho técnico), que irão permitr a reprodução precisa do 3-D. Como estamos falando de ilustração, quadrinhos, etc, você não precisa quebrar a cabeça com isso. A intenção é que você passe em seu desenho, uma noção de tridimensionalidade. Precisão é para máquinas e você é um ser humano. O que interessa é que você convença a pessoa de que aquela perspectiva funciona.

Quando digo isso, não é para sair desenhando tudo a torto e direito e qualquer coisa em qualquer direção. Apenas estou dizendo que você não precisa realizar uma precisão milimetricamente calculada.

Bem, continuando, o fenômeno da ilusão ocorre pela percepção visual do ser humano. Ilusão porque no papel, o desenho não passa de linhas e mais linhas que criarão ilusoriamente o efeito da profundidade. Sabemos que obviamente o papel é plano, mas em nosso cérebro, nós conseguimos enxergar a profundidade ali desenhada. Sabe-se que desde a Grécia antiga, já se tinha uma excelente noção da perspectiva (e duvido nada, antes desse período também), mas ela foi popularizada mesmo, apenas no Renascimento. Mais precisamente com o arquiteto e pintor Filippo Brunelleschi.

Temos então as regras da perspectiva. Aquelas da perspectiva cavalera e isométrica, a cônica – velhos pontos de fuga, linha do horizonte ou altura do observador, e blá blá blá e etc. Não vou entrar nesses detalhes porque existem trocentos tutoriais e e-books para baixar por aí na internet (a menos que muita gente peça :D). Aqui, quero apenas falar da perspectiva em geral e do detalhe exposto no início desse post.

Transcrevo aqui as palavras de um email que recebi do Lockwood faz um tempão, quando lhe fiz uma pergunta (O link para o site dele você vê ali do lado):

Perspectiva é, literalmente, a visão que você tem de onde você estiver, dependendo para onde você está posicionando o seu olhar. Ela é dinâmica e viva. Move-se e molda-se conforme você também se move. Jogue longe todas as noções pré-concebidas de coisas que lhe foram ensinadas quando criança: “linhas verticais em arquitetura devem ser linhas verticais no papel e assim por diante” – e passe a ver com seus olhos o jeito de como as coisas realmente são. Isso não significa que você deva fazer toda linha sendo curva, mas se você tem consciência da dinâmica, você será capaz de melhor compensar isso quando desenhar. É algo com a ciência, mas bem simples uma vez que você passa a enxergar isso. Observação e prática irão funcionar em casa.

Reflitam um pouco nestas palavras. Essa é apenas uma minúscula parte da “aula” crítica que honrosamente recebi. Minha vida no desenho praticamente mudou depois desse email.

Voltando ao assunto, o que quero falar aqui agora, é da volumetria. Sabemos (e você leu no trecho acima) que a observação é o princípio de tudo. Sobre tudo na perspectiva. Mas será mesmo o essencial? Sim. Porém, ela deve estar aliada a outra coisa: A PERCEPÇÃO. Não adianta você olhar para algo, achar que entendeu, e fazer de forma diferente.

O que quero dizer está meio que auto-explicado nas imagens abaixo:

0102Notou a grande diferença entre as duas janelas? A primeira é praticamente estilizada. Ela pode funcionar em um desenho de um cartum ou outra grande estilização. Mas jamais será convincente em um comics (mesmo que neste não haja muito detalhamento de ambientes) e principalmente em um mangá (no qual os personagens são estilizados, mas no cenário há um certo refinamento na maioria dos títulos).

É óbvio que você tem alguma janela em casa. Pare e observe. Ela não é simplesmente colada na parede. Há uma reentrância na qual ela é inserida. E você não precisa ser um arquiteto ou engenheiro para perceber isso. Isso é o que eu chamo de percepção e observação. Observar para ver o objeto, e percepção para ver os detalhes e melhor inserí-los no seu desenho, dando uma ambientação convincente, mostrando que os personagens realmente estão dentro de um cenário.

Que tal pegarmos então um exemplo mais simples? Veja abaixo:

0304Tá, a segunda porta não está lá essas coisas bem alinhada com a primeira, mas não interessa. O que interessa é você ver o que acontece com o objeto. Na primeira, ela simplesmente está colada na parede e parece feita de papel. Na segunda há a volumetria. Mais da parede do que da própria porta em si que está inserida na reentrância. Até mesmo o rodapé foi detalhado.

Isso é trabalhoso? Sim e não. Sim, porque para quem está tentando, e ainda compreendendo as coisas, é um pouco. E não, porque uma vez já acostumado com essa visão, em um instante se faz esse pequeno detalhe.

E esse é o ponto final no qual eu queria chegar. Mostrei dois exemplos, janelas e portas. Mas existem muito mais coisas, obviamente. A diferença é que objetos móveis, são mais fáceis de se perceber, como uma televisão (apesar que essa, já vi muita gente, em pleno século 21, desenhando-a como um caixote quadrado (tá legal que existem as telas LCD que são finas até demais, mas aí já é outra história). Como disse, já vi muita HQ com esses “objetos” mostrados acima desenhados de forma igual aos primeiros exemplos.

Se sua história é algo super estilizado, como o cartum. Tudo bem. Se é sua proposta e ainda mais dentro de um tipo de desenho bastante estilizado, não há problemas. Porém, no momento em que você quer dar uma dramaticidade no cenário, no momento em que você está fazendo um comics, europeu, estilo próprio, mangá e o “escambau” e sei lá mais o que como você queira chamar, então, dê uma atentada ao mundo a seu redor e abra os olhos. As referências estão aí do seu lado! Menos preguiça e mais açao, por favor!

9 Respostas to “Os Mistérios da Perspectiva – 1”

  1. Bruno (Shooting Star) Says:

    Eu sou um lixo no desenhos e pouco sei sobre as tecnicas, mas o tutorial ficou muito bom. Até eu, consegui perceber a mensagem que foi passada.
    🙂

  2. sou preguiçoso pra essas coisas XDD quero é pespectiva em pessoas XDDD
    tenho mesmo que fazer uns cénarios nos meus desonhos… prometo me esforçar mais =D~~

  3. Acontece…

    O negócio é o treino, acima de tudo, o treino!

    Brigadão!

  4. Cenário faz parte do corpo do desenho. É importantíssimo a presença dele. Senta esse lápis no papel homem!

  5. Aemoru Shitai Says:

    perspectiva faz parte de um belo desenho quano se quer adicionar um cenário de fundo,principalmente de gráficos urbanos.é uma coisa que leva algum tempo para que se possa aprender(ainda estou trabalhando em cima disso).muito boa essa matéria postada,parabéns Nomad.

  6. Graco Says:

    Rapaz gostei muito desse mini-tutorial, bem a muito tempo atrás eu não me importava muito com os detalhes de cenário e bem sem comentários muito extensos, meus quadrinhos ficavam uma bosta, de vez em quando saia um cenário mais legal mas mesmo assim não era muito bom não, vale a pena ficar olhando uma cadeira para ter a referencia de como desenha-la, torna o desenho mais próximo a realidade do leitor ( a nossa ) ajuda a ele se sentir inserido e é mais agradável ao leitor ( por que o cérebro é uma máquina de dar sentido, quando o cenário é muito pobre e não bate com o que o cérebro está já acostumado a ver, causa uma poluição visual gerada
    a partir do esforço a mais que o cérebro faz para entender que “aquilo” é uma “cadeira”) – agora puxando para outro assunto, ei NoMaD tipo cara não sei se você acompanha os trabalhos mais recentes do Ken Akamatsu ( o Negima) bah mas o que interessa é que no final do mangá cara teve uma vez que tinha uma nota dele mostrando como os cenários fodões eram criados tipo, ele cria uma “maquete” tridimensional que permite ele tipo viajar por ela girar enverter aproximar distanciar e ela ja fica no esqueminha do desenho no estilo deles ai ele vai acrescentando os detalhes na mão, mas em fim tu já ouviu falar desse programa ?

  7. Mas como eu disse, é menos complicado do que se parece. Só um pouco de prática e de desenvolvimento de percepção visual.

    Fico satisfeito que tenha gostado do texto! Mais do tipo virão aí!

  8. Tem o Autocad (malditos sejam os anos perdidos estagiando, mexendo apenas nesse programa!!!) que dá para fazer desenho técnico 2d e passar para 3d, o 3dsmax que é a poderosa ferramenta de maquete e modelagem 3d, e o Sketchup, verdadeira causa de 99% dos estudantes de arquitetura não saberem nem pegar em um lápis direito. Esse último é bem simples e desenha linhas fazendo uma maquete volumétrica tridimensional. Como vê os detalhes são vários.

    Negima eu acompanhava da ex-, ela colecionava. Mas quando acabou,… aí cê sabe, parei de ler obviamente.

    É realmente essa a idéia central do post e praticamente da perspectiva em um desenho nesse primeira parte de sua resposta. A inserção do leitor na história. Justamente esse jogo com o cérebro que construirá mais facilmente o ambiente quão menos estilizado ele estiver.

    Que bom que você também gostou. Isso me motiva a escrever mais. Em breve, quando eu tiver mais idéias eu escrevo.

    Falando nisso, é bom para você e o Shitai acima que também comentou: Se possível, peguem o livro do David Chelsea – “Perspectiva para desenhistas de quadrinhos”. Se algum de vocês já leu o Scott Mccloud (Desenhando Quadrinhos) ou pelo menos já ouviu falar, então vai se familiarizar com esse. É do mesmo estilo. Um livro que ensina sobre determinado assunto e desenhado em…quadrinhos! É excelente.

  9. kananda Says:

    eu queria sabe como surgiu a perspesctiva e aonde tá

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